quinta-feira, 3 de agosto de 2017

SÉRIE 1 PEDRO: 6 – A CONDUTA DO CRISTÃO




6 – A CONDUTA DO CRISTÃO
(29-03-2017)
Introdução: Até aqui Pedro tratou dos privilégios recebidos pelo povo de Deus (2.1-10); a partir de agora, adverte-nos sobre nossos deveres (2.11-3.12). Pedro faz a ponte entre o que Deus concedeu aos cristãos e como isso deve agora se refletir no mundo, de forma que aproxime outras pessoas do mesmo Deus.
Pedro aborda a questão da submissão no contexto do governo, do trabalho, da família e da igreja. Deus instituiu o lar, o governo humano e a igreja, e tem o direito de dizer como essas instituições devem ser administradas. O mesmo Deus que salva seu povo requer dele obediência em todas as áreas da vida. É bem conhecida a advertência de A. W. Tozer: “Para evitar o erro da salvação pelas obras, nós caímos no erro oposto, da salvação sem obediência”.
Em meio às injustiças sofridas e ao fogo da perseguição crescente, Pedro mostra a importância da submissão na vida do cristão. A submissão é uma evidência da plenitude do Espírito (Ef 5.18-21) e uma prova da obediência a Deus. Os cristãos maduros, por causa da obediência a Deus, submetem-se ao governo, aos patrões e uns aos outros. Pedro aplica o tema da submissão à vida do cristão como 
  • CIDADÃO (2.11-17), 
  • TRABALHADOR (2.18-25), 
  • CÔNJUGE (3.1-7) E 
  • MEMBRO DA IGREJA (3.8-12).

Texto Bíblico: 1 Pedro 2.11-17
11 Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma. 
12 Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, mesmo que eles os acusem de praticar o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da intervenção dele 
13 Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, 
14 seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem. 
15 Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos. 
16 Vivam como pessoas livres, mas não usem a liberdade como desculpa para fazer o mal; vivam como servos 
17 Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei.

1 - PEREGRINOS, FORASTEIROS, MAS EXEMPLARES 

“Amados, insisto em que, como estrangeiros e peregrinos no mundo, vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma. Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, mesmo que eles os acusem de praticar o mal, observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da intervenção dele” (1 Pedro 2,11-12) 
Como pastor do rebanho (5.1), Pedro se dirige às ovelhas de Cristo em um tom paternal. Destacamos alguns pontos importantes aqui.


1º OS CRISTÃOS SÃO AMADOS POR DEUS. Amados... (2.11a). Os cristãos são alvo do amor incondicional de Deus (2.11; 4.12). Foram chamados das trevas para a luz, do pecado para a santidade. O amor de Deus é incondicional. Nada podemos fazer para Deus nos amar menos ou mais . A causa do amor de Deus por nós está nele mesmo.

2º OS CRISTÃOS SÃO ESTRANGEIROS E PEREGRINOS NO MUNDO. ... como estrangeiros e peregrinos no mundo... (2.11b). A expressão “peregrinos e forasteiros” retoma dois conceitos já abordados (1.1,17). Trata-se de dois grupos sociais distintos, mas aparentados dentro do espectro social: paroikoi (peregrinos) pode ser melhor traduzido por “estrangeiros residentes”, uma classe de habitantes sem plenos direitos de cidadania. Refere-se a retirantes que residem sem pátria e cidadania em local estranho. Para- pidemoi são forasteiros visitantes, que se detêm num lugar por certo tempo, mas não se configuram como residentes. Com isso, Pedro diz que precisamos ter consciência da interinidade de nossa existência terrena.
O povo de Deus não tem cidadania permanente aqui. Nascemos do Espírito, nascemos de cima, e nossa pátria está no céu (Fp 3.20: Mas a nossa pátria está nos céus, donde também aguardamos um Salvador, o Senhor Jesus Cristo,). Estamos viajando para a cidade celestial (Hb 11.8-16). Estamos aqui de passagem e não temos casa permanente. Como afirmamos antes, palavra grega pamikos, “peregrinos”, indica um estrangeiro residente, que não tem cidadania, enquanto a palavra grega paredimós, “forasteiros”, retrata aqueles que habitam na terra apenas por um breve tempo, como visitantes, pois sabem que a sua pátria está no céu (Fp 3.20). Esses termos foram usados para descrever os patriarcas, especialmente Abraão, que buscava a cidade cujo arquiteto e fundador é Deus (Hb 11.9,10).

ILUSTRAÇÃO: O caso do alemão que morou por 3 meses no aeroporto de Cumbica. 
Stephan Brode ficou famoso por bater em passageiros e funcionários no terminal de Guarulhos; parentes disseram ao Consulado da Alemanha que o turista sofre de esquizofrenia.
Ele agredia as pessoas, principalmente mulheres. Por fim foi deportado para a Alemanha. Sua atitude porém, foi a de um estrangeiro que deu mau exemplo e assim denegriu a imagem da sua verdadeira pátria. 

Precisamos dar bons exemplos. 
Nossas atitudes falam mais que as palavras. 
O nosso alvo deve ser sempre reproduzir o caráter de Cristo, o qual se desenvolve em nós pelo fruto do Espírito: Mas o fruto do Espírito é: o amor, o gozo, a paz, a longanimidade, a benignidade, a bondade, a fidelidade. a mansidão, o domínio próprio; contra estas coisas não há lei. (Gálatas 5:22,23)

3º OS CRISTÃOS SÃO GUERREIROS ESPIRITUAIS. ... vocês se abstenham dos desejos carnais que guerreiam contra a alma.  (2.11b). A vida cristã é um campo de guerra. Travamos uma batalha sem trégua contra o diabo, o mundo e a carne. Warren Wiersbe ressalta que a nossa verdadeira luta não é contra as pessoas que nos cercam, mas sim contra as paixões dentro de nós. No texto, Pedro destaca a necessidade de nos abstermos das paixões carnais. Quais são essas paixões carnais? O próprio Pedro responde: dissoluções, borracheiras, orgias, bebedices e... detestáveis idolatrias (4.3). Na batalha espiritual, devemos resistir ao diabo, não nos conformar com mundo, mas fugir das paixões carnais. O caminho da vitória sobre as paixões carnais não é o enfrentamento, mas a fuga e a abstinência. Essas paixões carnais incluem as obras da carne (G1 5.19-21), mas vão além delas. Concordo com William Barclay no sentido de que essas paixões carnais compreendem também o orgulho, a inveja, a malícia, o ódio e os maus pensamentos que caracterizam a caída natureza humana. Essas paixões guerreiam contra nossa alma a fim de contaminá-la e destruí-la.

4º OS CRISTÃOS SÃO EXEMPLO NUM MUNDO HOSTIL. Vivam entre os pagãos de maneira exemplar para que, mesmo que eles os acusem de praticar o mal, (2:12a). Os gentios aqui não são uma raça distinta dos judeus, mas os incrédulos, sejam eles gentios ou judeus. Os não salvos nos observam, falam contra nós (3.16; 4.4) e procuram desculpas para rejeitar o evangelho. Os cristãos estavam sendo acusados injustamente por muitos delitos e crimes. Estavam debaixo de intensa hostilidade e sofrendo graves injustiças. Manter uma conduta irrepreensível quando somos aplaudidos e elogiados é fácil; o desafio é manter exemplar o procedimento mesmo quando somos alvos de maledicência.
  • A VIDA CRISTÃ PRECISA SER AUTÊNTICA: 
  • AS EXCENTRICIDADES CAUSAM ESCÂNDALOS
  • SAL DA TERRA E LUZ DO MUNDO
  • TEMOS UM ADVOGADO

5º OS CRISTÃOS DEVEM PROVOCAR ADORAÇÃO NO MUNDO. ... observem as boas obras que vocês praticam e glorifiquem a Deus no dia da intervenção dele (2.12b). A vida dos cristãos é como uma cidade no alto de um monte; não pode esconder-se. Simon Kistemaker pondera que os cristãos estão vivendo numa vitrine; estão à mostra. Sua conduta, obras e palavras são constantemente avaliadas pelos não-cristãos que querem constatar se os cristãos vivem aquilo que professam.
ESTAMOS NUMA VITRINE
CERCADOS POR UMA GRANDE NUVEM DE TESTEMUNHAS
SOMOS COMO “CIDADES EDIFICADAS SOBRE O MONTE” Ilustração – Perguntaram a Gandhi porque ele não aderia ao cristianismo. Ao que ele respondeu: Qual cristianismo?

2 - SUBMISSÃO DO CRISTÃO ÀS AUTORIDADES

Deus instituiu a família, a igreja e o governo. Ele não é Deus de confusão, mas de ordem. O princípio de autoridade e o dever de submissão são ensinos claros nas Escrituras. Mesmo num contexto turbulento como o império romano e mesmo tendo o insano imperador Nero no poder, Pedro não recua nem transige com a verdade. Destacamos aqui alguns pontos importantes.

1º A ABRANGÊNCIA DA SUBMISSÃO. sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens;... (2.13a). Pedro aborda a submissão primeiro num âmbito mais geral. A magistratura certamente existe por direito divino, mas a forma particular de governo, o poder da magistratura, e as pessoas que devem executar esse poder são instituições humanas, governadas por leis e constituições de cada país particularmente.

2º A MOTIVAÇÃO PARA A SUBMISSÃO. ... por causa do Senhor... (2.13b). Submissão não significa obediência cega nem subserviência. No projeto de Deus, não há espaço para o autoritarismo despótico nem para o absolutismo. Reis e governadores não têm o poder absoluto. O poder que exercem é outorgado por Deus (Rm 13.1-3). Por isso, são autoridades constituídas por Deus e devem governar sob a autoridade absoluta de Deus. 

3º OS NÍVEIS DE AUTORIDADE. ... seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes (2.13c,l4a). O que Pedro está dizendo é que, não importa o sistema de governo — monarquia, presidencialismo ou parlamentarismo -, devemos prestar obediência. Não importa se a autoridade é um rei, presidente ou primeiro-ministro, nosso dever é sujeitar-nos a ela. Esse respeito e essa obediência não são à pessoa, mas à função que ela ocupa

4º O DEVER DA AUTORIDADE. ... tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem (2.14b). A autoridade é instituída por Deus com um duplo propósito: promover o bem e coibir o mal. O Estado, com sua ordem e leis, é o ministro de Deus competente para promover a justiça social e o bem geral da sociedade; ao mesmo tempo, é investido de autoridade para refrear o mal, punindo exemplarmente os culpados. Quando as autoridades, porém, se tornam omissas no cumprimento desses deveres ou se corrompem a ponto de promover o mal e coibir o bem, são passíveis de repreensão. Nesse momento, precisamos exercer nossa voz profética, denunciando abusos e desvios, ainda que isso nos custe a vida. Holmer diz que, quando a autoridade classifica o mal como bem e o bem como mal, quando se arroga o direito de controlar a consciência e a fé, vale a palavra de Jesus: daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22.21).182

5º O PROPÓSITO DA SUBMISSÃO. Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos.  (2.15). A obediência civil é expressa vontade de Deus para seu povo, especialmente num contexto em que esse povo é caluniado, perseguido e despojado. Um exemplo vale mais que mil palavras. O testemunho irrepreensível é melhor que discursos eloquentes. A prática do bem é um argumento irresistível que tapa a boca daqueles que se insurgem contra a igreja.

6º A NATUREZA DA SUBMISSÃO. Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos.  (2.16). Somos servos livres, pois a ética cristã começa na libertação de toda forma de escravidão. A verdadeira liberdade promove o bem do próximo e a glória de Deus. Quanto mais servimos a Deus e ao próximo, mais livres somos. Kistemaker, citando Lutero, diz que um cristão é um senhor perfeitamente livre sobre todas as coisas, não estando sujeito a nenhuma delas. Um cristão é um servo perfeitamente obediente a tudo e sujeito a todos.
A submissão cristã não eqüivale a escravidão nem a fraqueza. Significa liberdade e força. Usar a liberdade cristã como motivo para a anarquia e a desobediência civil é corromper a liberdade e insurgir-se contra a natureza da submissão. Transformar liberdade em libertinagem e submissão em insurreição é um pecado contra Deus e uma afronta às autoridades. Holmer adverte quanto ao risco de tentarmos encobrir a maldade com o pretexto da liberdade. Isso seria abusar da liberdade. Porque a verdadeira liberdade é liberdade para o bem e para a obediência a Deus; é liberdade do pecado e da malícia.
Pedro alerta que as paixões interiores podem sentir-se sem amarras que as limitem e, assim, liberadas, voltam a escravizar a pessoa. Por isso, a verdadeira liberdade supõe outra atitude: sermos “servos de Deus”. William Barclay afirma corretamente que o cristão é livre porque é escravo de Deus. Nossa perfeita liberdade reside em servirmos a Deus. Só somos verdadeiramente livres na medida em que somos servos de Deus. E conhecido o adágio pronunciado por Agostinho de Hipona: “Quanto mais escravo de Cristo sou, mais livre me sinto”.

7º OS LIMITES DA SUBMISSÃO. Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei. (2.17). Pedro nos dá quatro mandamentos aqui: 

1. “Tratai a todos com honra”. O cristão deve tratar a todos com o devido respeito, independentemente da sua posição na sociedade. Todo ser humano é digno de respeito por ser uma criatura feita por Deus. Num contexto como o império romano, que contava com sessenta milhões de escravos, a palavra de Pedro é revolucionária, pois os escravos não tinham direitos. Eram vistos como coisas, não como gente. E como se Pedro estivesse dizendo: Deem aos escravos dignidade humana; não os tratem como coisas. 

2. “Amai os irmãos”. A igreja é a família de Deus. E o que identifica os verdadeiros filhos de Deus é o amor praticado uns pelos outros. 

3. “Temei a Deus”. O temor a Deus é o princípio da sabedoria e o caminho para uma vida feliz (Pv 1.7). Temor significa reverência e respeito à pessoa de Deus a sua Palavra. O temor a Deus é a base da piedade cristã. Concordo com a declaração de Holmer: “Quem deseja amar a Deus sem temê-lo não tem diante de si o Deus da Bíblia. Até mesmo os mais altos anjos cobrem o rosto diante daquele que é três vezes santo”. 

4. “Honrai o rei”. A submissão crista não aceita a absolutização do Estado nem a divinização do rei. O rei deve ser honrado de tal modo que o amor pelos irmãos e o temor a Deus não sejam violados. A mesma honra que prestamos ao rei, dedicamos a todas as outras pessoas, nem menos nem mais. Assim como devemos tratar com honra um escravo, um idoso, uma criança e um estrangeiro, também devemos tratar com honra o rei.

CONCLUSÃO
O mundo olha para nós. Pode discordar de nós e até nos atacar, mas não pode deixar de reconhecer nossas boas obras. Essas boas obras, realizadas num ambiente hostil, diante de maledicentes, são uma mensagem evangelística eficaz, uma vez que tais pessoas serão impactadas e chegarão ao conhecimento da salvação para glorificar a Deus no dia da visitação. Esse dia, neste contexto, significa a ocasião de graça e misericórdia, na qual os não-cristãos aceitarão a oferta da salvação e glorificarão a Deus em gratidão.

ILUSTRAÇÃO EU NÃO TENHO OUTRO PLANO – O anjo Gabriel se aproximou de Jesus e disse: Mestre, o Senhor deve ter sofrido muito pelos homens lá embaixo. Sofri — disse ele. E continuou Gabriel, eles sabem tudo sobre como o Senhor os amou e que morreu por eles? Oh, não — disse Jesus — ainda não. Neste exato momento, apenas algumas pessoas na Palestina sabem. Gabriel ficou perplexo. — Então o que o Senhor fez para que todo mundo soubesse do seu amor por eles? — perguntou o anjo. Jesus disse: — Pedi a Pedro, Tiago e João e a alguns outros amigos que falassem às pessoas sobre mim. Aqueles que ouvirem, por sua vez, falarão a outras pessoas e, dessa maneira, a história será espalhada até os mais longínquos rincões da terra. Por fim, toda a humanidade terá ouvido sobre minha vida e minha obra. Gabriel franziu a testa e olhou com muito ceticismo. Ele sabia muito bem do que os homens eram feitos. — Sim — disse ele — mas e se Pedro, Tiago e João se cansarem? E se as pessoas depois deles se esquecerem? E se, lá pelo século XX, as pessoas simplesmente não disserem nada sobre o Senhor aos outros? O Senhor não preparou nenhum outro plano? — perguntou o anjo. Jesus mais uma vez respondeu: — Não tenho nenhum outro plano. Conto com eles.


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